Certamente, a história da música em São Paulo é feita de encontros, de oralidade e de relíquias que carregam muito mais do que sons. Afinal, elas carregam “axé”. Nesse sentido, não há figura mais emblemática para representar a fundação do nosso trabalho de preservação do que Geraldo Filme.
Muitos conhecem o “Tio Gê” como um dos maiores compositores da história do samba, aquele que traduziu a Barra Funda e o Bixiga em versos. Contudo, para nós, ele é também o padrinho simbólico da nossa missão.
Por isso, neste artigo, vamos mergulhar na importância histórica de Geraldo Filme. Além disso, revelaremos como seu LP de 1980 se tornou a peça número 1, ou seja, a pedra fundamental do acervo do SP em Retalhos.
Geraldo Filme: A voz da identidade negra paulista
Primeiramente, antes de falarmos do disco, é preciso reverenciar o homem. Geraldo Filme (1928–1995) não foi apenas um sambista; foi, acima de tudo, um cronista social e um guardião da memória. Embora tenha nascido na região de São João da Boa Vista, foi nos terreiros de samba da capital que ele se consagrou. Consequentemente, tornou-se a voz que unificou as tradições rurais — como o samba de bumbo — com o samba urbano das escolas.
Sua militância, entretanto, não era gritada em manifestos, mas sim cantada em poesias. Dessa forma, ele ensinou São Paulo a respeitar Tebas, Zumbi e Tia Ciata. Aliás, Geraldo Filme foi fundamental na construção da identidade da Paulistano da Glória, da Peruche e, claro, do Vai-Vai. Em suma, ele era a prova viva de que o samba paulista tinha dono, endereço e fundamento.
O histórico LP de 1980: Um documento sonoro
Nesse contexto, em 1980, a gravadora Eldorado lançou o álbum homônimo Geraldo Filme. Atualmente, este disco é considerado por muitos críticos como uma das obras-primas da música brasileira.
Diferente de coletâneas comuns, este LP capturou a essência crua do compositor em sua maturidade. Nele, encontramos, por exemplo, faixas que são verdadeiros hinos de resistência:
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“A Morte do Chico Preto”: Uma elegia emocionante que narra o fim de um sambista.
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“Batuque de Pirapora”: A conexão direta com a fé e as origens caipiras.
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“Tradição (Vai no Bixiga pra ver)”: Sobretudo, um hino de exaltação ao território negro.
Portanto, o LP de Geraldo Filme não é apenas um item de colecionador. Na verdade, é um documento que registra um tempo onde o samba era o principal veículo de comunicação das comunidades negras.
O encontro com Junior do Peruche: O nascimento do acervo
De fato, a história do SP em Retalhos se entrelaça intimamente com este disco. O nosso acervo teve um ponto de partida físico e emocional.
A primeira peça catalogada foi, justamente, um exemplar original deste LP. Todavia, não foi um exemplar comprado em um sebo. Este disco foi entregue, em mãos, pelo próprio Geraldo Filme a Junior do Peruche, fundador do projeto.
Naquele gesto, havia mais do que vinil. Havia, essencialmente, a transmissão de responsabilidade. Ao presentear Junior, uma figura ligada à Unidos do Peruche, Geraldo estava simbolicamente passando o bastão da memória.
Consequentemente, para Junior do Peruche, receber esse presente foi o catalisador. Foi o momento em que a paixão se transformou na missão de catalogar essa história. Assim, o LP de Geraldo Filme repousa em nosso acervo não apenas como um registro, mas como a semente de todo o nosso trabalho.
Preservar para não esquecer
Em conclusão, o samba de São Paulo deve muito a Geraldo Filme.
Aqui no SP em Retalhos, olhamos para aquele LP de 1980 e lembramos, diariamente, do nosso compromisso. Afinal, precisamos garantir que as futuras gerações saibam quem foram os bambas que asfaltaram a nossa cultura.


